Instituto Superior Técnico

Direção de Recursos Humanos

Fatores de risco psicossociais

a) Definição

Não sendo um conceito com uma definição unânime, diversas são as teorias que definem Riscos Psicossociais. A Organização Internacional do Trabalho (ILO, 1986, cit. por Pinho, 2015) define-os como as “interações entre o conteúdo do trabalho, organização e gestão do trabalho e outras condições organizacionais e ambientais, por um lado, e as competências e necessidades dos trabalhadores, por outro, que provem ter uma influência perigosa na saúde dos trabalhadores através das suas perceções e experiências.”

É importante entender que a vertente psicossocial de um risco laboral advém da sua origem e não da sua manifestação, desta forma, os Riscos Psicossociais devem ser compreendidos na sua tripla dimensão (física, mental e social) e deve ter-se em consideração as condições de trabalho e os fatores organizacionais e relacionais dentro da instituição (Martín & Yerro, 2002).

Um dos conceitos fundamentais na caracterização dos Riscos Psicossociais é o conceito de stress, amplamente reconhecido na literatura como sendo um problema para a humanidade (Fink, G.,2010). As diferentes ciências apresentam diferentes contributos para a definição deste conceito, o que não o torna fácil de definir. Na sociologia é considerado um desequilíbrio social; na engenharia o stress é considerado uma força externa que se exerce sobre o material que está exposto à mesma; na fisiologia são considerados diversas condições e estímulos que são prejudiciais para o corpo humano; em termos psicológicos as investigações não separam a componente biológica e psicológica do stress, o que torna a sua compreensão também difícil (Fink, G.,2010). No entanto, Lazarus, R.S (1966) refere que o stress surge quando uma pessoa perceciona não ter as estratégias necessárias para lidar adequadamente com as situações com que se depara, ou quando o seu bem-estar se encontra ameaçado.

Os fatores identificados na literatura como estando mais associados ao stress em contexto laboral são os seguintes:

• Insatisfação com o trabalho que se realiza;
• Elevada carga de trabalho/taxa de esforço;
• Demasiada responsabilidade;
• Trabalhar muitas horas;
• Expectativas pouco claras em relação ao desempenho desejável;
• Não ter oportunidade de participar nas tomadas de decisão;
• Trabalhar em condições perigosas;
• Discursar ou expor ideias em frente a colegas;
• Enfrentar situações de discriminação;
• Enfrentar situações de assédio.

b) Fatores de risco de stress no trabalho

Pinho (2015), citando Cox (1993), EU-OSHA (2007) e Gil-Monte (2009, 2012), refere que os riscos psicossociais podem relacionar-se com: o conteúdo do trabalho, a carga e ritmo do trabalho, o horário de trabalho, a perceção de controlo, o ambiente e equipamentos, a cultura e função organizacional, as relações interpessoais no trabalho, o papel na organização, o desenvolvimento de carreira e a interação trabalho-casa, bem como as novas formas de contratação e insegurança laboral, a intensificação do trabalho e as fortes exigências emocionais no trabalho.

O contexto de trabalho pode contribuir para um stress mais acentuado, nomeadamente através de…

• Dificuldades de comunicação, baixos níveis de apoio para a resolução de problemas e inexistência de programas de desenvolvimento pessoal (aspetos de cultura organizacional);
• Ambiguidade no papel profissional, ou conflito entre papéis, responsabilidade por outras pessoas (aspetos relacionados com o papel desempenhado pelo trabalhador);
• Estagnação na carreira, salários baixos, precaridade laboral, valor social baixo para o trabalho (aspetos relacionados com o desenvolvimento da carreira);
• Baixa participação nos processos de tomada de decisão, falta de controlo sobre o trabalho (aspetos relacionados com a latitude e controlo de decisão);
• Isolamento social ou físico, relações interpessoais difíceis com colegas e superiores hierárquicos, conflitos, falta de apoio social, exposição à violência (aspetos relacionados com as relações interpessoais no trabalho);
• Dificuldade em compatibilizar o trabalho com a vida pessoal, reduzido apoio em casa, problemas de dupla carreira, horários de trabalho irregulares, solicitação de realização de trabalho fora do horário (p.e. responder a e-mails ou telefonemas) e aspetos relacionados com a interface casa-trabalho).

c) A gestão dos riscos psicossociais

A Gestão, dentro das organizações, dos riscos psicossociais leva a um ambiente profissional mais saudável e produtivo, o que por sua vez contribui para um melhor desempenho da própria organização.

Segundo as orientações nacionais do Gabinete Psicossocial da Cruz Vermelha Portuguesa (2018), os benefícios inerentes a uma boa gestão dos Riscos Psicossociais são:

• Melhoria do bem-estar e da satisfação do trabalhador em relação ao trabalho e à organização;
• Recursos humanos motivado e produtivos;
• Melhoria global do desempenho e da produtividade;
• Redução do absentismo e do presencismo (i.e. comparecer no trabalho mesmo quando se está doente), das taxas de rotatividade do pessoal e dos custos associados à perda de qualidade;
• Redução dos custos e dos encargos para a sociedade em geral;
• Cumprimento dos requisitos legais (ver https://drh.tecnico.ulisboa.pt/workingtecnico/1-locais-de-trabalho-saudaveis-e-legislacao-laboral/).

Mesmo quando se conta com recursos limitados, é sempre possível avaliar e gerir com eficácia os riscos psicossociais. Para tal, é importante:

• Ser proactivo, dispor de um plano para antecipar e prevenir os problemas – este é o modo mais eficaz de gerir os riscos psicossociais no local de trabalho.
• Promover uma avaliação regular dos riscos na organização, com o objetivo de identificar os perigos e as soluções adequadas.
• Disponibilizar ferramentas práticas e orientações para facilitar a efetiva gestão dos riscos psicossociais.

A equipa técnica da comissão Working@tecnico, constituída por seis psicólogos do Técnico poderá ter um papel fundamental em diversas ações de prevenção dos riscos psicossociais:

• Promoção da saúde e aumento do bem-estar, da satisfação e da justiça no trabalho;
• Avaliação dos riscos psicossociais, através de instrumentos disponíveis para esse efeito (p.e. COPSOQ II);
• implementação e monitorização de programas de prevenção para situações de potencial risco para a saúde mental dos trabalhadores (stress, violência, assédio sexual ou moral, consumo de álcool e drogas, acidentes de trabalho, etc.);
• Auscultação e envolvimento dos colaboradores, na identificação das ações conducentes à melhoria da organização do trabalho e do clima laboral;
• Promoção do equilíbrio entre a vida profissional e vida familiar/pessoal;
• Promoção do desenvolvimento pessoal e profissional dos colaboradores e aquisição de comportamentos e hábitos de vida saudáveis;
• Sensibilização da gestão e das lideranças no sentido de promover uma gestão orientada para a prevenção dos RPS;
• Promoção da saúde mental, através da oferta de programas de gestão e redução do stress;
• Promoção da saúde física, através de programas promotores de atividade física e alimentação saudável no local de trabalho.

d) Prevenção de riscos psicossociais (RPS)

A gestão adequada dos RPS implica três níveis de prevenção:

Primária: focada no coletivo, visa promover mudanças nas características da situação, tornando-a menos stressante e procurando promover um maior bem-estar geral;

Secundária: procura mudar a forma como os indivíduos e as organizações respondem às exigências necessárias e inevitáveis do trabalho e da vida organizacional, nomeadamente através da implementação de programas de gestão do stress;

Terciária: apoiar e acompanhar o colaborador, ao nível da disponibilização de consultas com psicólogo e/ou médico (é importante a articulação estreita com organizações especializadas em Segurança e Saúde no Trabalho), ajudando-o a encontrar e desenvolver estratégias para enfrentar situações adversas.

Em termos gerais, as evidências revelam que as intervenções de prevenção de stress reduzem o impacto dos fatores e níveis de stress ocupacional, nomeadamente as intervenções de prevenção primária (Blewett et al., 2006 citados por OPP, 2014).

A equipa da CARP-T ganhou o prémio de Boas Práticas em Psicologia da Ordem dos Psicólogos Portugueses com o trabalho desenvolvido no working@tecnico, um reconhecimento concedido a equipas “cujas políticas e práticas demonstram um compromisso forte e inovador com o papel assistencial da Psicologia, nomeadamente, na promoção do bem-estar físico, psíquico e social de pessoas, grupos, organizações e comunidades”.

Mais informações: http://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/regulamento_praemio_boas_pra_ticas_drs.pdf